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Economia

Governo chinês deixa de cobrar tarifas às exportações africanas

A PARTIR DE 1 DE MAIO DE 2026

A medida insere-se na estratégia de aprofundar a integração com África, assegurando acesso directo a matérias-primas críticas e influência económica. Para África, a questão decisiva não é se a China abre o seu mercado, é se os países africanos conseguem usar essa abertura para transformar vantagens naturais em capacidade industrial sustentável.

A decisão de Pequim de aplicar tarifa zero a 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas, a partir de 1 de Maio de 2026, representa muito mais do que um gesto protocolar associado à cimeira da União Africana. Trata-se de um movimento com densidade económica e geopolítica, que consolida a posição da China como principal parceiro comercial do continente e reforça uma estratégia construída ao longo de duas décadas: garantir acesso preferencial a recursos estratégicos, ampliar mercados para a sua indústria e afirmar liderança no chamado "Sul Global".

O único país africano com quem a China não tem relações diplomáticas é Essuatíni, que reconhece oficialmente Taiwan. A China é, há 15 anos consecutivos, o maior parceiro comercial de África. O comércio bilateral superou os 340 mil milhões de dólares em 2025, com uma estrutura ainda marcadamente assimétrica. África exporta sobretudo petróleo (Angola e Nigéria), cobre e cobalto (Zâmbia e RDC), ouro (Gana), minério de ferro (África do Sul), bauxite (Guiné Conacry) e diamantes (Botsuana).

Em sentido inverso, importa maquinaria pesada, equipamentos eléctricos, tecnologia de telecomunicações, veículos, materiais de construção e bens de consumo.

A eliminação das tarifas poderá, em teoria, melhorar a competitividade de produtos agrícolas e industriais africanos - cacau, café, algodão, frutas tropicais, pescado processado - mas a questão central permanece: quantos países africanos têm capacidade produtiva, certificação sanitária, logística portuária e escala industrial para tirar partido efectivo dessa abertura?

O anúncio surge num momento em que a China enfrenta pressões comerciais externas e procura diversificar parceiros num contexto de fragmentação do comércio global.

Ao aprofundar a integração com África, Pequim reduz dependências estratégicas, assegura acesso directo a matérias-primas críticas e amplia a sua esfera de influência económica. Não é coincidência que os principais investimentos chineses no continente estejam concentrados em sectores estruturais: energia, mineração, infra-estruturas de transporte, telecomunicações e parques industriais.

Mais de 310 mil milhões USD

Desde o lançamento do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), em 2000, o financiamento público e os créditos concedidos por instituições chinesas ao continente ultrapassaram 180 mil milhões de dólares. Angola, por exemplo, recebeu mais de 45 mil milhões de dólares em linhas de crédito desde 2002, maioritariamente garantidas por petróleo.

A Etiópia tornou-se um laboratório de industrialização apoiado por capitais chineses, com parques industriais orientados para a exportação. O Quénia construiu a ferrovia Mombaça-Nairobi com financiamento chinês. A Zâmbia e a RDC tornaram-se peças-chave na cadeia global de cobre e cobalto, minerais indispensáveis à transição energética.

A este valor deve juntar-se o investimento directo chinês em África, cerca de 130 mil milhões USD. Empresas como a Huawei, a China National Petroleum Corporation e a China Railway Construction Corporation operam hoje em dezenas de países africanos, participando na construção de barragens, estradas, portos, refinarias, redes 5G e minas. Esta presença empresarial é acompanhada por financiamento estatal e por uma diplomacia económica articulada ao mais alto nível, liderada pelo Presidente Xi Jinping.

Uma estimativa robusta e conservadora indica que, desde 2000 até meados da década de 2025, instituições financeiras e empresas chinesas canalizaram algo entre aproximadamente 310 mil milhões USD e 325 mil milhões USD em financiamento e investimento para países africanos.

As consequências da dívida

Mas a parceria tem também uma face financeira sensível. A China tornou-se o maior credor bilateral de África, com uma dívida bilateral estimada em 85 mil milhões de dólares (apenas dívida pública garantida ao governo chinês e bancos estatais chineses), sem contabilizar empréstimos corporativos com garantia do Estado, dívida contratada por empresas privadas e obrigações ou títulos emitidos em mercados financeiros com participação chinesa. Países como Zâmbia, Etiópia, Quénia e Angola figuram entre os mais endividados junto de instituições chinesas.

O modelo "recursos por infra- -estrutura" - em que empréstimos são amortizados com receitas futuras de exportação de petróleo ou minerais - garantiu rapidez na execução de obras, mas aumentou a vulnerabilidade orçamental em contextos de queda de preços internacionais. Nos últimos anos, Pequim tem participado em processos de restruturação selectiva, procurando preservar activos estratégicos e evitar incumprimentos desordenados que comprometam a sua própria posição geoeconómica.

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