Juros da dívida dos Eurobonds disparam 31% para 1.000 milhões USD
Governo continua a endividar-se para pagar despesas correntes, como fornecimento de bens e serviços, conforme se percebe pelas declarações de José Massano após a emissão. Juros dos novos Eurobonds estão muito acima da média de juros da dívida externa.
O Governo emitiu esta terça-feira 2.500 milhões USD em dívida soberana em moeda estrangeira nos mercados internacionais, através de duas emissões, uma de 1.500 milhões a sete anos e com taxa de juro de 9,375%, e outra de 1.000 milhões a 11 anos, com juros de 9,875%. Tratam-se da IX e X emis sões de Eurobonds feitas pelo País, que eleva assim os encargos com este tipo de instrumentos para mais de 1.000 milhões USD por ano a partir de 2027, o que representa um aumento de 31% face aos 750,7 milhões USD previstos para 2026, de acordo com cálculos do Expansão com base no Plano Anual de Endividamento (PAE) deste ano.
A procura por parte de investidores foi de 5.200 milhões USD, mais do dobro dos 2.000 milhões USD que Angola pretendia emitir. Estas operações que decorreram no Reino Unido e que contaram também com investidores dos EUA, superaram em quase 800 milhões USD os 1.682 milhões que estavam inscritos no Plano Anual de Endividamento para 2026 em novas emissões de Eurobonds, numa altura em que os mercados internacionais vivem "ao sabor" da incerteza provocada pelo recente conflito entre EUA e Israel com o Irão, que tem feito disparar os preços do petróleo.
Na "ressaca" desta incerteza e com a alta de preços da energia, os bancos centrais têm dado sinais de maior prudência, evitando cortes nas principais taxas directoras, antevendo um cenário de alta inflação e de arrefecimento das principais economias a nível mundial.
Neste cenário, é expectável um aumento das taxas de juro das dívidas soberanas e Angola optou por avançar o quanto antes, até porque as yields de divida angolana (indicador que mede as taxas de juro a que os investidores dizem estar receptíveis a aceitar para emprestar dinheiro) até estavam abaixo dos 9,000% na semana passada, inferiores aos 10,125% que o País paga de juros por uma das emissões de Eurobonds feitas em 2025. Mas à semelhança do que aconteceu no passado, as emissões tendencialmente comportam taxas de juro superiores às yields, e foi isso que se voltou a verificar.
Apesar de estarem abaixo dos da última emissão, os juros agora contratualizados são superiores à média ponderada dos juros da dívida pública externa angolana, que no final de 2025 subiu para 7,250% face aos 6,790% de 2024. Assim, as taxas de juro das duas emissões ficaram 2,1 e 2,6 pontos percentuais acima dessa média. Juros tão elevados são preocupantes, até porque o recurso ao endividamento é hoje uma prática inevitável por parte do Governo para financiar o OGE.
Só para se ter uma ideia, para 2026 está prevista a captação de cerca de 15,0 bi liões Kz em financiamentos internos e externos, que equivalem a 47% das receitas totais do Orçamento Geral do Estado. No mercado interno está prevista a captação de 47% dessas verbas (equivalente a 7.545 milhões USD), cabendo o restante ao mercado externo, equivalente a 8.413 milhões USD.
Na quarta-feira, o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, "cantou vitória" à saída do Conselho de Ministros, enaltecendo o feito de o País ter conseguido fazer estas duas emissões numa altura em que o mundo vive dias de incerteza. E deixou escapar que parte do dinheiro dessas emissões servirá para pagar despesas correntes como fornecimento de bens e serviços ao Estado, ou seja, despesas correntes, o que em economês significa que o Estado se está a endividar para conseguir pagar aquilo que é considerada "má despesa".











