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Opinião

Consumidores de Inteligência | Estará África a construir IA ou apenas a importá-la?

CONVIDADO

Para Angola, a escolha estratégica não é entre tecnologia estrangeira e tecnologia nacional. Economias pequenas e médias importarão inevitavelmente componentes. A questão decisiva é outra: o que aprendem enquanto importam? O investimento externo deixa competências? As universidades participam? As empresas nacionais entram nas cadeias de valor? Existe transferência de conhecimento? A contratação pública produz aprendizagem ou apenas consumo?

"Cada geração deve, na sua relativa obscuridade, descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la." Frantz Fanon A nova divisão internacional da inteligência

"A tecnologia não é boa nem má; nem sequer é neutra." Melvin Kranzberg

Durante dois séculos, a Economia Política interrogou-se sobre quem fabricava as máquinas e quem se limitava a importá-las. A Inteligência Artificial não dissolveu essa clivagem; requintou- -a. Hoje, uma economia pode adoptar modelos generativos, automatizar serviços e disseminar aplicações estrangeiras sem controlar uma única camada nevrálgica da tecnologia que consome. Pode ostentar modernidade digital e, ainda assim, permanecer estruturalmente periférica.

A Oxford Insights capta esta clivagem ao distinguir os países produtores de modelos de Inteligência Artificial (model makers), dotados de recursos, competências e capacidade tecnológica para conceber sistemas avançados de IA, dos países consumidores desses modelos (model takers), cujas economias permanecem predominantemente dependentes da adopção e utilização de tecnologias concebidas e desenvolvidas noutras geografias.

A fórmula é fecunda para África. Já não importa saber quantos africanos utilizam IA, mas onde residem o cálculo, o engenho, as empresas, a investigação e a capacidade de converter algoritmos em valor económico endógeno. Quatro dimensões do índice permitem radiografar esta anatomia: Capacidade Computacional (Compute Capacity), Capital Humano (Human Capital), Maturidade do Sector de IA (AI Sector Maturity) e Difusão da Tecnologia de IA (AI Technology Diffusion). A metodologia prevê que o Desenvolvimento e Difusão (Development & Diffusion) pressupõe um sector de IA maduro para responder à procura local, capital humano apto a sustentar inovação e circulação tecnológica entre empresas, investigadores e sociedade civil. Não basta acesso: exige-se apropriação.

A escassez africana não é apenas computacional

"Está ao alcance da ciência e da tecnologia fazer até o Sahara florescer e transformá-lo num vasto campo de vegetação para o desenvolvimento agrícola e industrial." Kwame Nkrumah

Na África Subsaariana, a média de Capacidade Computacional (Compute Capacity) é de apenas 3,48 pontos. O Capital Humano (Human Capital) sobe para 28,43, a Maturidade do Sector de IA (AI Sector Maturity) para 8,25 e a Difusão da Tecnologia de IA (AI Technology Diffusion) para 26,27. A dissonância expõe uma economia digital assimétrica: há mais utilizadores, competências e difusão do que musculatura doméstica para produzir a tecnologia sobre a qual essa disseminação assenta.

A África do Sul apresenta a arquitectura regional mais densa: 29,64 pontos em capacidade computacional (compute), 41,09 em capital humano, 21,30 em maturidade sectorial e 54,78 em difusão. A Nigéria regista apenas 9,27 em capacidade computacional (compute), mas alcança 48,90 em capital humano, 28,79 em maturidade sectorial e 44,23 em difusão. Quénia, Gana, Maurícia e Etiópia revelam geometrias distintas, mas partilham um traço: começam a acumular elementos indispensáveis para converter adopção em aprendizagem produtiva.

Sanjaya Lall (1992) chamou a atenção para uma verdade que a euforia digital amiúde obnubila: capacidades tecnológicas não são mercadorias acabadas que um país simplesmente compra. Sedimentam-se através de aprendizagem, engenharia, experiência produtiva, competências, instituições e interacção empresarial.

Angola: utilizar mais do que produz

"Nem a África pode permitir-se ficar para trás ou ignorar o desenvolvimento científico do nosso tempo."

Kwame Nkrumah Angola oferece, uma vez mais, uma configuração paradoxal. Em Capacidade Computacional (Compute Capacity), alcança 6,59 pontos, quase o dobro da média regional e o 6.º lugar entre os 48 países. Porém, essa vantagem relativa perde continuidade nos restantes elos da cadeia.

O capital humano situa-se em 25,90, abaixo da média subsaariana; a Maturidade do Sector de IA (AI Sector Maturity) desce para apenas 4,37; e a Difusão da Tecnologia de IA (AI Technology Diffusion) fica em 15,40, contra 26,27 na região. Num indicador meramente descritivo - a média das quatro dimensões, sem pertença ao índice oficial da Oxford Insights - Angola obtém 13,06 pontos, face a 16,61 na África Subsaariana, ocupando aproximadamente o 25.º lugar regional.

O número torna visível a fractura: o país possui uma posição relativamente favorável em capacidade computacional, mas essa base ainda não se transfigurou num ecossistema equivalente de empresas, competências e disseminação tecnológica.

É esta descontinuidade que separa infra-estrutura disponível de capacidade tecnológica endógena. Um servidor compra- -se; uma comunidade científica decanta-se durante anos. Uma licença de computação em nuvem (cloud) contrata-se em dias; uma empresa tecnológica capaz de competir, adaptar modelos, formar engenheiros e reter propriedade intelectual exige longa maturação institucional. A Oxford Insights sublinha que os casos mais bem sucedidos não nascem de injecções episódicas, mas de esforços persistentes para edificar fundamentos tecnológicos, empresariais, políticos, regulatórios e humanos. É este encadeamento cumulativo que separa mera adopção de transformação estrutural.

Para Angola, a escolha estratégica não é entre tecnologia estrangeira e tecnologia nacional. Economias pequenas e médias importarão inevitavelmente componentes. A questão decisiva é outra: o que aprendem enquanto importam? O investimento externo deixa competências? As universidades participam? As empresas nacionais entram nas cadeias de valor? Existe transferência de conhecimento? A contratação pública produz aprendizagem ou apenas consumo?

A dependência tecnológica começa quando uma economia compra incessantemente soluções sem acumular competências para as compreender, adaptar ou substituir. Importar tecnologia não é, em si mesmo, dependência. Dependência é importar sem aprender, consumir sem acumular, modernizar a superfície deixando intacta a periferia estrutural.

África pode tornar-se um dos maiores mercados de IA do século sem se converter num dos seus grandes produtores. Eis o risco. Porque consumir inteligência não equivale a acumular inteligência produtiva - e nenhuma transformação estrutural duradoura se ergue apenas sobre algoritmos alugados.

*Francisco Xavier Pedro, Economista

Edição 900, de 30 de Outubro de 2026

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