Contas nacionais revisadas revelam economia que cresce, mas sem investimento nem inclusão
A queda de indicadores como a remuneração e a poupança, em contraste com o aumento do excedente operacional bruto, evidencia a necessidade de políticas públicas que promovam uma distribuição mais equilibrada da riqueza nacional. Caso contrário, persistirão riscos acrescidos de tensões sociais, como as que acabaram por se verificar em 2025.
No início do mês, o Instituto Nacional de Estatística (INE) destaca a revisão das Contas Nacionais Anuais referentes ao período 2015-2024. Esta revisão teve em conta a atualização das Estatísticas das Finanças Públicas realizada pelo Ministério das Finanças, através do seu Gabinete de Estudos, Planeamento e Relações Interinstitucionais, no âmbito da migração para o Manual de Estatísticas das Finanças Públicas 2014.
Deste exercício resultaram alterações relevantes. Por exemplo, o crescimento real do PIB em 2024 foi revisto em alta, situando-se agora em 4,95% (Quadro 1). Ao analisar os principais indicadores macroeconómicos, observa--se que, apesar da recuperação do PIB após a pandemia da Covid-19, sobretudo a partir de 2021, a remuneração da força de trabalho manteve a trajetória descendente iniciada em 2016 (cf. Gráf. 1).
Este comportamento sugere um agravamento gra dual da desigualdade na distribuição da riqueza gerada no país. Importa notar que a recuperação do PIB no período pós-pandemia também não se traduziu num aumento da formação bruta de capital (cf. Gráf. 2), ou seja, não houve um reforço significativo do investimento em infraestruturas, equipamentos ou desenvolvimento tecnológico, como defendemos na obra "Covid-19 em Angola: O desafio de repensar o papel do Es tado". Isto indica a ausência de uma aposta consistente na formação de capital produtivo.
Este cenário ocorre num contexto em que a taxa diretora do BNA se manteve acima dos 9% no período em análise. Segundo a teoria económica, o capital tende a direcionar-se para onde é melhor remunerado; assim, uma taxa de juro relativamente elevada como esta deveria incentivar o aumento do investimento, o que não se confirma nos dados do INE.
Paralelamente, apesar da redução da taxa de investimento, verificou-se um aumento do excedente operacional bruto, indicador que representa o rendimento gerado pela produção após a dedução dos custos diretos, como salários e consumos intermédios, excluindo impostos, juros e depreciação. Entre 2015 e 2024, este indicador aumentou 7,16 pp, passando de 71,3% para 78,46% (cf. Gráf. 3).
O Gráf. 3 revela que mais de 70% do rendimento gerado pela produção é apropriado pelo capital (em presas e proprietários), o que sugere níveis médios de remuneração relativamente baixos, fragilidade do mercado de trabalho e elevada informalidade. Esta realida de, fragilidade e informalidade, é corroborada pelo Inquérito ao Emprego em Angola referente ao IV Trimestre de 2025.
Apesar de possuir um alto excedente operacional bruto, os angolanos estão a poupar menos conforme mostra os dados da Poupança Bruta em percentagem do PIB (cf. Gráf. 4).
No período em análise o valor máximo atingido foi no ano de 2018 quando a poupança bruta foi de 32,64%. De lá para cá, a poupança caiu, excepto em 2021, até 15,88%, o que evidencia uma redução na capacidade de Angola poder investir fazendo uso dos seus recursos internos, comprometendo ainda mais a necessidade de diversificar a economia.
Adicionalmente, ao analisar a proporção da renda disponível que é poupada em vez de consumida (cf. Gráf. 5), verifica-se que até 2018 existia uma tendência de aumento da poupança. A partir desse ano, observa-se uma trajetória descendente, com excepção de 2021, ano em que registou ligeira recuperação, revertida nos anos seguintes. Em suma, os dados das contas nacionais revistas devem ser analisados com atenção, na medida em que revelam uma realidade menos robusta do que a frequentemente retratada no discurso político.
A queda de indicadores como a remuneração e a poupança, em contraste com o aumento do excedente operacional bruto, evidencia a necessidade de políticas públicas que promovam uma distribuição mais equilibrada da riqueza nacional. Caso contrário, persistirão riscos acrescidos de tensões sociais, como as que acabaram por se verificar em 2025.













