Saltar para conteúdo da página

Logo Jornal EXPANSÃO

EXPANSÃO - Página Inicial

Opinião

Ganhar Batalhas, Perder a Guerra : A balança externa angolana ao ritmo do barril

CONVIDADO

É preciso governar o tempo: planeamento plurianual, continuidade estratégica e responsabilização pessoal. Estados fracassam quando improvisam; nações vencem quando perseveram. Porque um país que vive de ciclos sobrevive - mas só um país que constrói estratégia permanece

Os dados traçam uma cartografia implacável de dependência: a posição externa de Angola marcha em formação cerrada com o preço internacional do petróleo. Quando o barril recua para 42,3 USD (2020), a balança corrente sofre uma derrota táctica, resvalando para 1,3% do PIB. Quando o crude ascende - 70,2 USD em 2021 e 99,0 USD em 2022 - o saldo externo conhece uma vitória conjuntural, elevando-se a 9,8% e 8,2% do PIB. Em 2024, o alívio da balança corrente não brotou de um surto virtuoso de criação produtiva, mas de uma contenção austera das importações, enquanto o petróleo, em clarão derradeiro, excedeu as previsões e sustentou o saldo externo.

Já em 2025, esse mesmo esteio revela a sua natureza crepuscular: o sector petrolífero, fatigado e declinante, retoma a trajectória de erosão, deixando exposta a fragilidade estrutural que o excedente conjuntural apenas velara por instantes.

A leitura estratégica é inequívoca: o equilíbrio externo não resulta de uma superioridade competitiva endógena, mas de uma renda exógena e volátil, como um exército que vence por reforços alheios e não por indústria própria. As exportações não petrolíferas permanecem uma retaguarda frágil, incapaz de sustentar uma campanha prolongada. Angola governa a conjuntura, mas não comanda o teatro estrutural da guerra económica.

A Vitória de Poucos, o Sacrifício de Muitos

"Ganhos assimétricos corroem a coesão do sistema." Henry Kissinger

Ganham o Estado e o Tesouro, que em campanhas de petróleo elevado engrossam o erário com fluxos fiscais e cambiais, acumulando munição financeira para estabilização táctica; o complexo petrolífero-exportador, vanguarda rentista que avança sob cobertura de preços altos; e as actividades conexas que exploram a janela de arbitragem externa.

Perdem a economia produtiva não petrolífera, confinada à retaguarda anémica, incapaz de sustentar a logística do crescimento; os trabalhadores e consumidores, expostos à procela cambial e à inflação viscosa; e a diversificação, que progride em quantidade sem comando, falhando a conquista da autonomia estratégica. O resultado é uma vitória episódica no teatro externo e uma derrota estrutural na guerra do desenvolvimento.

Instituições Fortes, Margem Curta

"A soberania mede-se pela margem de decisão." Raymond Aron

As regras são definidas pelo Executivo e pelo Banco Nacional de Angola, no quadro da política macroeconómica e dos compromissos externos. A legitimidade é formal e institucional, assente no mandato de estabilidade macroeconómica. Contudo, a margem de decisão é fortemente condicionada pela dependência petrolífera e pela necessidade de preservar reservas e acesso a financiamento externo.

Contabilidade no Lugar da Visão

"Quando a gestão substitui a visão, a estratégia definha." André Beaufre

Predomina uma doutrina pragmático-ortodoxa, de feição monetarista-contabilística, orientada para a estabilidade externa e fiscal como linha de defesa primária. A credibilidade internacional é tratada como atido estratégico, a preservar a qualquer custo, enquanto a volatilidade é aceite como tributo inevitável do modelo rentista vigente. Os valores dominantes exaltam o equilíbrio de curto prazo, a disciplina aritmética e a contenção do risco, mesmo quando tal opção posterga a metamorfose produtiva profunda. A ideologia subjacente privilegia a sobrevivência macroeconómica sobre a construção de poder económico endógeno, convertendo a gestão em fim e a transformação em promessa adiada

Governar a Maré, Ignorar a Rota

"Administrar ciclos não é comandar o futuro." Lawrence Freedman

O poder político, económico e institucional em Angola exerce-se segundo uma lógica reactiva de gestão de marés, mais atento ao pulso do mercado petrolífero do que à edificação de uma arquitectura externa durável. Quando o preço do crude ascende, como em 2021- -2022, o aparelho institucional recolhe ganhos e a balança externa melhora; quando o ciclo se inverte - 2020, 2023 e 2025 (proj.) - o excedente retrai-se e a margem de manobra estreita-se. Esta alternância revela um poder que administra a conjuntura, mas não a transcende.

A ausência de uma base exportadora diversificada e densificada impede a conversão de termos de troca favoráveis em sustentabilidade externa permanente. O resultado é um equilíbrio externo de natureza cíclica, volátil e dependente, onde a estabilidade surge como episódio e não como conquista estrutural.

A leitura estratégica conduz a um veredicto severo: Angola não padece da escassez de oportunidades, padece da ausência de comando. Governa-se ainda ao som do preço do barril, como quem navega sem astrolábio, reagindo à maré em vez de traçar a rota. O petróleo converteu-se em muleta cambial e fiscal, útil para avançar alguns passos, mas incapaz de sustentar marcha longa. Sem ruptura, o excedente é dissipado; sem disciplina, a bonança degenera em entropia.

A primeira batalha é institucional. O excedente petrolífero deve ser conscrito e transformado em capital estratégico compulsório, alocado a uma política industrial selectiva, coerciva e mensurável, com objectivos claros, auditoria implacável e sanção ao fracasso. Em estratégia, dispersão é rendição.

A segunda frente é empresarial: criar campeões nacionais exportadores, protegidos no nascimento, expostos na maturidade, avaliados pela sua capacidade de gerar divisas, produtividade e encadeamentos internos. Subsídio sem resultado é traição económica.

A terceira manobra é macroeconómica: substituir a âncora única da estabilidade por uma âncora dupla, onde a estabilidade externa marche lado a lado com metas vinculativas de diversificação, valor acrescentado e emprego durável. A quarta ofensiva é externa: despetrolizar a balança, conquistar mercados regionais, ocupar corredores logísticos, transformar Angola de fornecedor de crude em plataforma produtiva e exportadora. Sem logística, não há campanha; sem escala, não há vitória.

Por fim, é preciso governar o tempo: planeamento plurianual, continuidade estratégica e responsabilização pessoal. Estados fracassam quando improvisam; nações vencem quando perseveram. Porque um país que vive de ciclos sobrevive - mas só um país que constrói estratégia permanece.

*Francisco Xavier Pedro, economista

Edição 868, de 20 de Março de 2026

Logo Jornal EXPANSÃO Newsletter gratuita
Edição da Semana

Receba diariamente por email as principais notícias de Angola e do Mundo