Esperança de vida vs. Índice de Desenvolvimento Humano
Angola está a vencer a batalha da sobrevivência. A guerra do desenvolvimento humano integral, porém, permanece em curso. O desafio estratégico já não é apenas fazer viver mais, mas fazer viver melhor - com educação que emancipa, rendimento que dignifica e oportunidades que deixem de ser exceção para se tornarem destino comum.
I. A esperança de vida à nascença | A linha avançada da sobrevivência "Uma nação revela-se na forma como protege os seus mais frágeis." Edmund Burke A esperança de vida à nascença é a primeira linha de contacto entre o Estado e a carne humana. É o arco silencioso que se projeta no instante inaugural do existir, quando o primeiro vagido rompe a inércia do mundo e inscreve o recém--nascido no cálculo impessoal da história. Este indicador traduz o número médio de anos que um ser humano pode aspirar habitar sob um determinado regime de riscos, cuidados e omissões, par tindo do pressuposto - sempre provisório, sempre vulnerável - de que os padrões de mortalidade observados no limiar da vida se manterão constantes ao longo da travessia biográfica.
Não é cifra neutra nem artefacto demográfico asséptico. É prognóstico civilizacional, quase augúrio político. Nela se entrelaçam, como nervuras invisíveis, a robustez dos sistemas de saúde, a higiene dos espaços comuns, a capilaridade do cuidado médico, a abundância ou penúria alimentar, a segurança quotidiana e, de forma oblíqua, mas inexorável, a arquitetura moral e institucional das políticas públicas.
Cada ano acrescentado ou subtraído à esperança de vida é um veredicto silencioso sobre prioridades, escolhas e negligências acumuladas.
A esperança de vida funciona, assim, como um sismógrafo ético do bem-estar coletivo. Onde se eleva, entrevê-se uma comunidade que aprendeu a custodiar a vida como bem estratégico supremo; onde declina, denuncia-se a erosão do pacto social e a falência do dever primeiro do Estado: proteger, sustentar e dignificar a existência humana desde a sua epifania mais frágil até ao crepúsculo da idade.
II. O Índice de Desenvolvimento Humano | A grande síntese antropológica
"Desenvolver é permitir que cada um se torne aquilo que pode ser.", Aristóteles (leitura contemporânea)
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), concebido no seio do Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento, constitui uma métrica sincrética de elevada densidade axiológica. O seu propósito não é medir a opulência, mas auscultar a possibilidade de florescência humana. Assenta em três eixos estruturantes da vida social. O primeiro é a longevidade, captada pela esperança de vida à nascença - esse meridiano temporal que antecipa a extensão provável da vida sob um determinado regime histórico de protecção.
O segundo é a educação, medida pelos anos médios e esperados de escolaridade, sinal inequívoco da aposta no capital cognitivo e na inteligência partilhada. O terceiro é o rendimento, avaliado pelo Rendimento Nacional Bruto per capita, não como fetiche contabilístico, mas como potência instrumental ao serviço da ampliação das capacidades...














