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Opinião

IA aplicada à saúde Eficiência com supervisão humana

CONVIDADO

Uma boa IA não faz e nem inventa a medicina, ela traz organização clínica, prioriza necessidades, sinaliza e reduz gargalos, com isso reduz-se o tempo de resposta em casos críticos. Sobretudo em unidades de urgência/emergência, onde o volume ultrapassa a capacidade de resposta contínua e a demora passa a decidir o risco e sucesso clínico ou a sentença de morte de um paciente.

Em 2003, quando iniciei a minha carreira, ao percorrer hospitais durante auditorias de certificações, ficava mais evidente para mim que, a segurança da assistência ao paciente dependia quase integralmente de uma variável frágil: a constante vigilância de um profissional (um ser humano) muitas vezes sobrecarregado e exausto após horas em plantões agitados e quase sempre em mais de uma instituição, situação ainda hoje "comum".

A assistência médica e os cuidados de saúde, apesar de toda a sua ciência e avanço, carrega uma dose incómoda de incerteza operacional. Nos dias de hoje ao fazer esta retrospectiva e ver como a maioria de nós, profissionais que actuamos na área da saúde, resistimos à Inteligência Artificial soa-me tão anacrónico como um cirurgião que se recusa a lavar as mãos antes de operar.

Não me refiro a futurismos ou de robôs a substituir médicos, enfermeiros e demais profissionais da saúde, mas sim de sobrevivência, dignidade no atendimento, profissionais sem os efeitos da exaustão profissional, agilidade nos diagnósticos e intervenções, assertividade clínica, eficiência operacional dos hospitais e menores custos.

Enfim, o verdadeiro atendimento humanizado. Os argumentos éticos e técnicos já foram superados pelos dados. As directrizes publicadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2024 e 2025 no "AI ethics and governance guidance for large multi-modal models" e "Ethics and governance of artificial intelligence for health" não deixam dúvidas e colocam a discussão sobre uso de IA na saúde num outro nível: O uso de IA na saúde exige supervisão humana efectiva, sim, mas a negligência em não a usar para salvar vidas começa a ficar indefensável. Surge um novo padrão de responsabilidade civil e ético onde tecnologia clínica se mede por segurança, rastreabilidade e impacto na assistência.

Na aplicação prática, segundo o "Impact of Artificial Intelligence Triage onRadiologist Report Turnaround Time" sobre triagem em angiografias pulmonares, evidenciou-se uma redução significativa do tempo entre o fim do exame e o primeiro relatório preliminar antes e depois da implementação.

A IA não "lê" o exame pelo médico, mas actua como um estudante do internato médico curioso e incansável que aponta para o ecrã e diz: "Professor, olhe para este ponto, agora este, outro ali."

Uma boa IA não faz e nem inventa a medicina, ela traz organização clínica, prioriza necessidades, sinaliza e reduz gargalos, com isso reduz-se o tempo de resposta em casos críticos. Sobretudo em unidades de urgência/emergência, onde o volume ultrapassa a capacidade de resposta contínua e a demora passa a decidir o risco e sucesso clínico ou a sentença de morte de um paciente. Para além da expertise, tempo e atenção são fundamentais para uma boa decisão clínica, é aí que a IA deixa de ser uma conversa futurista e passa a ser uma conversa do presente. Sempre que sou convidado a falar sobre tecnologia aplicada à saúde e uso de IA, surge a inevitável pergunta: "Os Médicos serão substituídos pela IA e perderão o emprego? A minha resposta é sempre: "os médicos nunca serão substituídos pela IA. Mas os profissionais serão substituídos por outros profissionais que sabem usar IA.

O receio de substituição e ameaça a postos de trabalho é compreensível, mas as evidências mais sólidas apontam para um novo rearranjo do trabalho, não para extinção automática de profissões. Os relatórios Health and care workforce: Society at a Glance 2024 e Are working environments for healthcare workers improving? Da OCDE (2024), o Future of Jobs Report 2025, bem como a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em uma actualização sobre IA generativa e emprego (2025), trazem um conjunto de evidências sobre o trabalho em saúde que quebram este paradigma da substituição em massa, mesmo em países em que não há escassez de profissionais médicos.

Observa-se uma tendência de transformar tarefas e o perfil dos profissionais, exigindo uma gestão da capacitação e redesenho de novos processos. Trata-se de uma reconfiguração da carga cognitiva do trabalho com a tecnologia retirando destes profissionais acções repetitivas e a decisão por padrões óbvios que são replicáveis.

A vantagem? O médico ganha mais tempo para se dedicar ao que realmente importa e que nenhuma IA será capaz de fazer, como olhar nos olhos do paciente, tocá-lo, explicar o diagnóstico e a terapia com segurança e precisão, e exercer a empatia clínica, transmitindo conforto e tranquilidade ao paciente. A IA devolve a humanidade à assistência médica ao retirar tarefas repetitivas de padrão "robótico" do humano...

*Edgar Santos, onsultor de negócios (Health Care) da TIS

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