Rescrever
No meio de todo este cenário, temos a racionalidade suficiente para perceber que estes avanços são maioritariamente estatísticos, resultam de contas feitas num gabinete, da forma como se compilam e se recolhem os dados e não podemos ficar com a doce ilusão que a política económica está a cumprir os objectivos anunciados.
O INE está a rescrever a história da nossa economia dos últimos 12 anos com o argumento que agora são utilizadas novas metodologias alinhadas com as melhores práticas internacionais. Além da alteração de valores no passado, um especialista dizia ao Expansão que "em Angola até o passado é incerto", provocou o melhor trimestre de sempre da nossa economia, dizendo-nos que nos três últimos meses de 2025 o PIB cresceu 5,7%, a taxa de desemprego caiu 10%, a economia finalmente diversificou-se, a agricultura foi o sector que mais contribuiu para a riqueza gerada no País com 22,9%, enquanto que o petróleo contribui apenas com 13,9% para o PIB. O índice Industrial cresceu exponencialmente e a inflação homóloga voltou a cair. Huuummmm....
Tudo isto de uma só vez levanta muitas dúvidas aos maiores especialistas e universitários, apesar de toda a máquina mediática pública que exponencia estes milagres do INE. O economista Wilson Chimoco diz esta semana ao Expansão: "É importante que haja maior transparência nos moldes como as actualizações são feitas. Não basta ir à TV e dizer que a metodologia está alinhada às melhores práticas internacionais. Tem de se validar as fontes que alimentam a base do INE, os processos e procedimentos de recolha, tratamento e apuramento dos dados têm de ser replicáveis, comparáveis e auditados. E isso não tem sido possível".
Obviamente que todos queríamos que estes avanços se vissem na prática, que a população vivesse melhor, que houvesse mais emprego, especialmente o formal, que a economia gerasse mais riqueza, que os preços subissem de forma mais moderada, mas não é a nossa realidade. Pelo menos em Luanda. Até porque depois existem dados que são contraditórios. Por exemplo a confiança dos empresários neste período é o mais baixo dos últimos quatro anos. Será que eles não estão a ver este milagre? O número de empresas activas baixou bastante neste período. Afinal quem é que gerou este desenvolvimento económico?
No meio de todo este cenário, temos a racionalidade suficiente para perceber que estes avanços são maioritariamente estatísticos, resultam de contas feitas num gabinete, da forma como se compilam e se recolhem os dados e não podemos ficar com a doce ilusão que a política económica está a cumprir os objectivos anunciados.
Não, não está, infelizmente! Se os discursos oficiais nos atiravam para uma cloud cor- -de-rosa, agora os números também. Mas isso não resolve os nossos problemas nem nos torna mais ricos. E pode ter custos muito elevados a médio prazo. Esperemos que não, para bem do País.














