Psicologia do Engano Enganando e sendo enganados
Compreender a raiz biológica do engano ajuda gestores a criar sistemas de mitigação mais eficazes. Entender a mentira como algo biológico não significa aceitá-la, mas sim parar de se surpreender com ela. Se a mentira é biológica e busca o menor esforço ou a autoprotecção, as empresas devem criar processos onde falar a verdade seja psicologicamente mais seguro e vantajoso.
As instituições corporativas, as famílias, as pessoas em relações amorosas lutam por um ambiente isento de enganos, um espaço sem mentiras, sem falsidades, de honestidade absoluta ou que se perceba como absoluta. Será isso possível? A biologia e a teoria evolucionista dizem-nos que não. Afinal, todos os animais usam o engano. E os humanos possuem instrumentos muito mais sofisticados... O engano é visto como uma falha moral nas empresas, mas é uma característica biológica intrínseca.
No reino animal encontramos o mimetismo, a camuflagem e o engano táctico. O engano serve para maximizar recursos e proteger a prole. Lixing Sun, no seu livro "Os mentirosos da natureza e a natureza dos mentirosos - batota e dissimulação no mundo vivo" (2023), explica-nos que a mentira não é apenas um desvio de carácter, mas uma ferramenta de sobrevivência e adaptação. Um dos mais conhecidos exemplos de engano - de tal modo que a própria palavra "traição", que tem um significado bastante amplo, nos remete imediatamente para a traição conjugal - é a infidelidade conjugal. Lixing Sun apresenta a regra básica do comportamento sexual adaptativo dos animais, particularmente de aves e mamíferos: "as fêmeas seguem os recursos e os machos seguem as fêmeas".
O autor explica que os homens são mais propensos a enganar e a trair, e fazem-no "tipicamente para multiplicar as suas oportunidades de reprodução", por sua vez, as mulheres fazem-no "para ter acesso a recursos ou melhores genes para os filhos".
A infidelidade das fêmeas, no reino animal, traz as seguintes vantagens: uma herança genética melhorada; a garantia de fertilidade; e ter uma descendência geneticamente diversa gerada por pais diferentes. O que é que isto tem a ver com o mundo corporativo? Lixing Sun responde: "O facto de a diversificação ser também um princípio básico do investimento financeiro não é apenas coincidência. Pode perder tudo se apostar todo o seu dinheiro numa única empresa que declara falência. Do mesmo modo, os animais correm o risco de perder tudo se mantiverem uma homogeneidade genética que pode diminuir-lhes a capacidade imunitária necessária para combater uma vasta gama de germes e parasitas".
O engano nos humanos é universal - existe, como existe nos restantes animais -, e é único. Nós, humanos, possuímos a linguagem, uma inteligência elevada e sociedades complexas. As pessoas praticam o engano para "obter recursos não materiais, como status, reputação, credenciais sociais e oportunidades de carreira, que podem ser posteriormente convertidos em ganhos materiais". Nas organizações, o engano é frequente: candidatos que mentem no currículo para entrar no mercado. Colaboradores que omitem erros, por medo de punições ou mesmo demissão. Líderes que usam o engano para manter o poder. O auto-elogio, roubar créditos alheios, bajular os superiores - são comportamentos muito frequentes, até mesmo normalizados em determinadas instituições.
A escassez de recursos na savana transformou-se, hoje, na disputa por bónus, promoções e estatuto nas empresas. O engano e a mentira actual no ambiente corporativo (fraudes, omissões em relatórios, falsificação de competências em currículos, fingir excesso de trabalho e de responsabilidades, por exemplo) garantem o acesso aos recursos restritos, garantem o emprego, garantem a sobrevivência.
O mundo corporativo pode ser uma selva. Como prevenir a mentira e a corrupção nas instituições? Explica Lixing Sun: "fazendo a mentira pagar". Tornar a mentira um custo para o enganador. Criar um ambiente que realmente beneficie a honestidade. Por exemplo: não sancionando ou afastando quem pensa de modo distinto; criando espaços para a denúncia anónima; sancionando os infractores.
A outra solução, de acordo com o autor, é: "Para vencer o teu inimigo, tens de espiá-lo", conhecê-lo. Pense bem: não é o que o universo digital (de compras, redes sociais, pagamentos, publicidade, promoções, outros) faz connosco, milhões de seres humanos, o tempo todo? Não é essa informação tida como "o novo petróleo", principal combustível para a economia dos dados e da inteligência artificial? Pois é. Como enganam os enganadores? Primeiro, pelo aspecto: vestem bem, parecem sérios, legítimos, confiantes. Pela observação: percebem as falhas dos outros, as suas vulnerabilidades, as suas fraquezas. E, finalmente, pela pesquisa, para serem credíveis. (Estratégias apresentadas pelo famoso vigarista Frank Abagnale, cuja biografia espantosa pode encontrar no filme "Apanha-me se puderes", com o Leonardo DiCaprio).
Hoje, adverte Lixing Sun, a vasta e abrangente capacidade da Internet "oferece oportunidades ilimitadas à invenção de novas fraudes", e "a nossa capacidade cognitiva para as detectar pouco melhorou desde a Idade da Pedra". Pensa que as burlas são demasiado simplistas para que você caia nelas? Talvez não tenham sido desenhadas para si, mas para um tipo de vítima distinto. E todos nós podemos cair em fraudes quando estas são uma novidade, e quando acreditamos genuinamente que podemos fazer dinheiro fácil.
Compreender a raiz biológica do engano ajuda gestores a criar sistemas de mitigação mais eficazes. Entender a mentira como algo biológico não significa aceitá-la, mas sim parar de se surpreender com ela. Se a mentira é biológica e busca o menor esforço ou a autoprotecção, as empresas devem criar processos onde falar a verdade seja psicologicamente mais seguro e vantajoso do que mentir. O engano é natural e é ancestral. Existe. Faz parte do mundo biológico e do mundo social. Ignorar este facto pode levar as instituições a criarem regras utópicas, impossíveis de cumprir. O futuro da gestão de pessoas, para ser eficaz, deverá, pois, basear-se em dados realistas da natureza humana. Pense nisso.














