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"Gostaria que os angolanos aprendessem a apreciar mais a arte"

MATONDO ALBERTO | ARTISTA VISUAL

Entre a experiência adquirida ao longo de mais de quatro décadas e a falta de condições no mercado interno, Matondo Alberto expõe não apenas obras, mas também as fragilidades estruturais da arte e da sociedade angolana, onde a economia e as taxas de natalidade e mortalidade crescem, mas a melhoria das condições de vida da população continua um sonho adiado.

Possui uma longa estrada na realização de exposições individuais. A primeira foi em 1984 e, com esta, soma a sua 20.ª exposição individual. Como nasceu a exposição "Nsinga Ya Mfumu"?

Nasce do reconhecimento e da admiração dos artistas que tenho formado e das pessoas que apreciam o meu trabalho. Esta exposição é uma forma de agradecimento. Comecei a pintar em 1976, em Kinshasa, e continuo até hoje porque ainda tenho inspiração. Então, saber que, ao longo da minha trajectória, construí um legado e tenho conseguido inspirar gerações e passar experiência a outros artistas que hoje se tornaram grandes pintores é gratificante. Esta exposição é a consolidação do processo de ensino e aprendizagem.

O que significa a expressão em kicongo "Nsinga ya mfumu"?

O "Nsinga ya mfumu" significa "A mão do mestre", porque admiro a capacidade dos meus alunos de pintarem quadros tal como lhes ensinei. Por exemplo, tenho alunos que conseguem traçar as mesmas linhas e fazer os mesmos contornos que eu. Tenho um aluno, chamado Zeca, que faz pinturas em veludo, mas as linhas e os traços são os mesmos que lhe ensinei. Hoje, quando passo pelas galerias, museus ou ruas, consigo identificar, à distância, um quadro pintado por um dos meus alunos.

Qual é o sentimento que tem por chegar a mais uma exposição?

É um sentimento de gratidão. É mais uma exposição que se soma à minha carreira e fico feliz em saber que está a decorrer aqui na Galeria D"Maio, na UNAP, , até ao próximo dia 26, porque sou membro efectivo desde 1979. Em 1980 e 1981, participei em exposições colectivas realizadas na Galeria da UNAP e, em 1984, realizei a minha primeira exposição individual neste espaço. Esta exposição está a realizar-se graças ao apoio da nova direcção administrativa da UNAP, pois, quando Rosário Matias tomou posse, disse que daria o apoio necessário para a sua realização. Para muitos membros, sou o veterano da casa, por isso têm dado o máximo de apoio possível.

A mostra reúne obras maioritariamente produzidas em 2023.

Como foi o processo de criação das obras até à realização da exposição? Pintei-as em 2023, depois de estar muitos anos parado por falta de material, graças ao apoio da Galeria Tamar Golan, que me deu material para pintar algumas obras que expus no mesmo ano. Na época, pintei 15 quadros, vendi oito e sobraram sete. Com o restante material, pintei mais quatro e totalizei 11 quadros, que trouxe para a exposição "Nsinga ya mfumu".

Entre pincéis, telas e tintas, tem criado obras que retratam aspectos da sociedade. Qual é a mensagem que quer transmitir ao público através do quadro "As adolescentes africanas", que ilustra imagens de raparigas grávidas?

A minha mensagem é que devemos ter calma e cautela para com os adolescentes, porque atravessam uma das fases mais complexas da vida. Os nossos filhos, hoje, querem viver do imediatismo, agem sem pensar nas consequências dos seus actos, já não vêem os pais como referências e, se os vêem, já não os seguem. Actualmente, é comum vermos adolescentes que não trabalham a ostentarem bens materiais cuja origem os pais desconhecem. Vemos adolescentes grávidas e sem condições para cuidarem dos seus filhos, etc. Como pai, digo sempre que devemos ter calma, porque expulsar um filho de casa e deixá-lo à mercê da própria sorte não é o certo. Ainda que a sua filha esteja grávida, após dar à luz, permita que volte a estudar.

Existem adolescentes que querem estudar, mas não têm possibilidade e vice-versa.

Sim! Também temos poucas escolas e está difícil conseguir pagar as propinas, mas a culpa não é nossa, é do Estado. As dificuldades da vida estão a colocar os adolescentes numa situação difícil. Muitos estão a procurar empreender, outros são engraxadores para ajudar os pais com as despesas. Há também aqueles que vemos nos contentores de lixo, porque são catadores, e pensamos que são malucos, mas sobrevivem do lixo... Leia o artigo integral na edição 893 do Expansão, sexta-feira, dia 11 de Setembro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui

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