Fuga de quadros
Este problema de estarmos a perder cérebros e a ganhar subservientes e incapazes deve ser "atacado" de frente. Até porque a incompetência tem um grande problema, parece-me que gera mais custos do que a corrupção.
O problema da fuga de quadros angolanos para o estrangeiro deve ser tratado com toda a seriedade, sem os velhos complexos da falta de nacionalismo ou da triste sina de termos de sofrer pelo País para mostrar a nossa lealdade. Até porque os defensores deste discurso são normalmente gente que se passeia de Lexus, tem casa no estrangeiro e não frequenta os serviços públicos de educação ou saúde.
O País, nas últimas décadas, gastou milhões de dólares a formar quadros nas mais diversas áreas e, postos de volta a casa, não lhe conseguiu dar um emprego, uma carreira e uma perspectiva de futuro. Ainda na quarta-feira o presidente do sindicato dos médicos falava deste fenómeno que está a acontecer no sector da saúde, em que que dezenas de médicos angolanos já estão a trabalhar em países tão distantes como a Malásia ou o Qatar, ou em destinos mais lógicos, como Portugal, Espanha ou Inglaterra. Isto num momento em que o Angola tem um enorme déficit de médicos, uma das percentagem por habitante mais baixas da SADC.
Mas são também advogados, técnicos na área do petróleo, engenheiros das diversas especialidades, economistas, ou mesmo profissionais médios no sector dos serviços. E, embora todos estejamos de acordo que existem poucas oportunidades no País, estas são sistematicamente ocupados por filhos e primos, ou membros activos do partido no poder. Raramente são os melhores, a cultura da meritocracia ainda é uma miragem em grande parte das instituições públicas, sendo que o espaço no privado ainda é muito limitado, tendo em conta a realidade da nossa economia.
Este problema de estarmos a perder cérebros e a ganhar subservientes e incapazes deve ser "atacado" de frente. Até porque a incompetência tem um grande problema, parece-me que gera mais custos do que a corrupção. E, pior, ela própria, a incompetência, gera mais e mais corrupção.
Temos de nos habituar que os bons profissionais, os que são seguros de si, apesar de serem mais difíceis de comandar, porque como dominam as matérias e têm ideias próprias são muito eficientes e ajudam muito mais o nosso desenvolvimento. E temos de lhes dar um projecto de vida.
E também não vale a pena assobiar para o ar e fingir que não estamos a ver que o maior problema para o desenvolvimento é a baixa qualidade dos gestores públicos. Cometem erros sucessivamente, são exonerados, passam um ou dois meses em casa de castigo, e voltam para mais uma empresa ou instituição.
Este grupo limitado de pessoas que vive num mundo muito seu não ajuda a que o País avance. E que se faça a substituição natural pelos melhores, que o País consiga fixar os seus melhores quadros. Confesso que isto me preocupa bastante porque não vejo melhorias suficientes para me manter animado.














