"O que os clientes nos pedem mais? Reputação, mostrar impacto, credibilidade"
Em 2014, o choque petrolífero causou um terramoto na economia angolana, com efeitos bem conhecidos. Um dos sectores mais afectados foi certamente o da comunicação institucional e empresarial, que teve de se reinventar.
Chegou a Angola há cerca de 20 anos, um período de forte crescimento económico pós-guerra, marcado por elevados níveis de destruição e uma população massacrada pelos efeitos do conflito armado. O que mudou entretanto? Que memórias carrega desse período?
Eu entrei em Angola em 2007, numa altura muito marcante, aproximavam-se as segundas eleições do País, depois de muito tempo de guerra, de conflito, e como alguém que já tinha trabalhado em publicidade, tanto no mercado brasileiro (tinha acabado de vir do Brasil), como no mercado português (que foi a minha escola), para mim Angola era um grande desafio. Havia euforia. Eu vi novas estradas a serem erguidas, iluminação pública a aparecer, supermercados a aparecer. Trabalhámos em campanhas que muitas vezes não eram só para anunciar uma marca, era explicar como é que se utiliza um produto ou um serviço.
Em que sentido?
Por exemplo, fizemos a campanha do Nosso Super, que era um projecto muito interessante, e explicávamos como se entra numa loja com um carrinho de compras, coloca-se os produtos lá dentro e depois paga-se numa caixa. Não havia supermercados? Havia, claro, mas no Nosso Super a ideia era chegar a todas as províncias, e não havia supermercados em todas as províncias.
Algumas lojas tinham esse tipo de serviço, mas eram pequenas e localizadas em zonas específicas.
E eram frequentadas sobretudo por pessoas que já saíam do País e tinham esse hábito. Vi nascer, durante os primeiros anos, os grandes supermercados: Kero, Deskontão, Candando, e foi realmente uma euforia. Questionávamos nós, que já vivemos noutros países, se tínhamos mercado para isto tudo? Será que isto se suporta? Não sei responder à questão, só quem é dono das empresas percebe isso. Muitas vezes também se dizia que era um esforço para organizar o País, organizar mercados.
Quais eram os sectores mais vibrantes, para lá da distribuição alimentar?
Tínhamos uma Unitel e uma Movicel em euforia. Não só, tínhamos os bancos. Quando cheguei em 2007 acompanhei a mudança das mensagens publicitárias, que eram apenas mensagens de comunicação institucional, para mensagens de produto. Eu vendo mais barato. Ou a minha internet é mais rápida.
Começou-se a fazer promessas. E não apenas a dizer estamos aqui, eu existo.
Começou a haver concorrência. E nós sentimos que houve concorrência. A concorrência é muito interessante porque mobiliza o mercado. Baixa preços, melhora a qualidade. Foi dos momentos mais desafiantes e, para mim, foi muito interessante.
Em 2014 a situação alterou-se de forma drástica. Isso sentiu- -se nas empresas, no vosso trabalho. O que temos hoje?
O poder de compra baixou. É a informação que nós temos a partir dos estudos de mercado ou de audiência (que também baixaram). Quando isso acontece tu deixas de ter necessidade de comunicar para o consumidor ou para a classe média. Nós costumamos dizer, eu digo isso muitas vezes, os meus colegas também, que fuba e rama não se anunciam...











