Ano pré-eleitoral | Quando as decisões económicas deixam de ser técnicas
Às portas de um novo ciclo político, Angola enfrenta uma escolha silenciosa, mas decisiva: usar a economia como ferramenta de competição política ou como base de um projecto nacional de longo prazo.
À medida que Angola se aproxima de um novo ciclo político, a economia entra inevitavelmente no centro da disputa. Em contextos pré-eleitorais, as decisões económicas raramente são neutras. O Orçamento, os subsídios, a política fiscal, o discurso sobre crescimento e até o ritmo das reformas passam a responder não apenas a critérios técnicos, mas também a cálculos políticos. A questão central que se impõe no final de 2025 é simples, mas incómoda: até que ponto as escolhas económicas actuais são sustentáveis a longo prazo ou apenas funcionalmente úteis no curto prazo político? Em ano pré-eleitoral, a economia deixa de ser apenas um campo de políticas públicas e transforma-se num instrumento de gestão de expectativas sociais. Medidas como adiamento de reformas impopulares, reforço seletivo de despesas sociais, aceleração de obras públicas visíveis ou maior tolerância orçamental tornam-se tentadoras.
O problema não está na política em si, afinal, a economia nunca é totalmente apolítica -, mas no desequilíbrio entre racionalidade técnica e conveniência eleitoral. Quando decisões económicas passam a ser calibradas sobretudo para produzir conforto imediato, o custo tende a ser transferido para o futuro: mais dívida, menor margem fiscal e reformas estruturais adiadas.
A história económica de Angola mostra que os ciclos políticos frequentemente colidem com a necessidade de reformas profundas. Ajustes fiscais, reformas no sector público, redução de subsídios e combate a ineficiências estruturais são politicamente custosos, embora economicamente necessários. Em períodos pré-eleitorais, estas reformas tornam-se ainda mais difíceis de executar. O resultado é um padrão recorrente: ganhos aparentes no curto prazo, fragilidades reforçadas no médio e longo prazo.
A economia cresce menos pela produtividade e mais pela expansão do gasto público, criando uma ilusão de dinamismo que nem sempre se sustenta após o ciclo político. Outro fenómeno evidente é a politização do discurso económico. Indicadores positivos são amplificados, enquanto fragilidades estruturais são relativizadas. Crescimento do PIB, controlo da inflação ou estabilidade cambial passam a ser apresentados como conquistas absolutas, muitas vezes sem o devido enquadramento social: emprego, poder de compra, desigualdade e acesso a serviços básicos. Este tipo de narrativa cria um risco sério: confundir estabilidade macroeconómica com bem-estar económico real. Uma economia pode estar estável nos números e ainda assim distante da vida concreta da maioria da população. Quando o discurso político ignora essa diferença, aprofunda-se o fosso entre Estado e sociedade.
Num contexto pré-eleitoral, o papel das instituições técnicas - como o Ministério das Finanças, o Banco Nacional de Angola e os órgãos de controlo - torna-se ainda mais crucial. A sua credibilidade depende da capacidade de resistir à instrumentalização política excessiva e de preservar a coerência das políticas públicas. Mas a responsabilidade não é apenas institucional.
A sociedade civil, a academia, os media e os estudantes têm um papel central na leitura crítica das decisões económicas. Questionar não é desestabilizar; é fortalecer a democracia económica. Uma economia debatida publicamente é menos vulnerável a decisões oportunistas. Talvez o maior risco de uma economia excessivamente politizada em ano pré-eleitoral seja o adiamento do inevitável. Reformas não feitas hoje não desaparecem; apenas regressam mais tarde, com custos mais elevados e menor margem de manobra.
Angola enfrenta desafios estruturais claros: diversificação produtiva, emprego jovem, sustentabilidade fiscal, qualidade da despesa pública e inclusão económica. Nenhum deles será resolvido com medidas cosméticas ou discursos bem calibrados para o momento político.
A verdadeira maturidade política não se mede pela capacidade de ganhar eleições, mas pela coragem de tomar decisões difíceis quando elas são necessárias. Uma economia gerida apenas para responder ao calendário político pode ganhar aplausos temporários, mas perde solidez estrutural. Às portas de um novo ciclo político, Angola enfrenta uma escolha silenciosa, mas decisiva: usar a economia como ferramenta de competição política ou como base de um projecto nacional de longo prazo. A resposta a essa escolha moldará não apenas o próximo mandato, mas a confiança da sociedade no futuro económico do país.













