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Opinião

Amigo americano (II)

EDITORIAL

Manda o bom senso que devemos olhar para esta parceria como circunstancial, de interesse mútuo, com vantagens para ambos, mas sem assumir aquela postura de uma criança numa loja de chocolates que está a contagiar alguns. Parece importante, nesta altura, desenvolver esta cooperação, até para o reforço da nossa posição geoestratégica na região, mas fundamentalmente para finalizar projectos que podem ser decisivos para o desenvolvimento futuro da nação. É apenas isto.

Estamos apaixonados pelo nosso amigo americano. A forma como a comunicação social pública está a tratar a viagem de João Lourenço aos Estados Unidos, espero que não corresponda ao mesmo grau de euforia dos nossos governantes, passa a ideia, errada, que serão eles os salvadores da nossa pátria e os grandes responsáveis pelo possível desenvolvimento económico. Obviamente que é motivo de orgulho quando o Presidente da ainda maior economia mundial fala quatro vezes o nome do nosso País e diz que Angola é um parceiro estratégico na região. Mas deve ser apenas isso!

Podem ser um parceiro importante, marcar uma mudança importante na forma como nos endividamos, uma vez que exigem fiscalização, têm juros mais simpáticos e existe uma maior transparência face à aplicação das verbas que entram e a forma como vamos pagar. Não podemos fingir que a forma como a China nos emprestou "toneladas" de dinheiro acabou por não resolver grande parte dos nossos problemas, acabou por nos tornar dependentes de uma dívida que é hoje um enorme problema, projectado para pelo menos as duas ou três gerações que vêm a seguir.

Obviamente que a culpa também é muito dos nossos dirigentes que receberam e geriram estas verbas com o deslumbramento infantil de que a "massa" nunca ia acabar, acabando por alimentar um enorme esquema de corrupção, que já existia, mas que se potencializou com o acesso fácil ao dinheiro. E este deslumbramento não pode repetir-se com o nosso amigo americano, correndo o risco de o final da história ser semelhante, até porque não podemos esquecer que existem muitos países que foram apoiados pelos Estados Unidos e hoje estão numa situação bastante complicada, com crises económicas e sociais muito graves.

Manda o bom senso que devemos olhar para esta parceria como circunstancial, de interesse mútuo, com vantagens para ambos, mas sem assumir aquela postura de uma criança numa loja de chocolates que está a contagiar alguns. Parece importante, nesta altura, desenvolver esta cooperação, até para o reforço da nossa posição geoestratégica na região, mas fundamentalmente para finalizar projectos que podem ser decisivos para o desenvolvimento futuro da nação. É apenas isto.

Certamente que a nossa história e o nosso futuro nos trouxe e trará outras alianças, não podemos fechar portas nem esquecer quem se sentou na nossa mesa, devemos aprender com o que fizemos mal e pensar nas vantagens de forma colectiva. Sem vaidades e orgulhos pessoais que só atrapalham a construção do País. Se não fizermos por nós, ninguém o fará. As potências não se tornaram potências a distribuir, mas a arrecadar. Não nos devemos esquecer disto.