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Universidade

Má qualidade dos professores pesa no insucesso nos cursos de ciências

LIMITAÇÕES PEDAGÓGICAS ENTRE PRINCIPAIS CAUSAS DE REPROVAÇÕES NO 1.º ANO

Apesar das condições sociais dos estudantes ter influência negativa, a responsabilidade pelo insucesso académico no 1.º ano dos cursos de ciências, tecnologia, engenharias e matemática recai sobretudo nos professores, segundo académico. O professor deve fazer ciência para ensinar ciência e não ir procurar informações à internet que ele próprio não sabe explicar, justifica.

Um estudo, coordenado pelo investigador angolano Samuel Tumbula e pelos académicos portugueses Joaquim Azevedo e Luísa Mota Ribeiro, revelou que factores como a falta de clareza pedagógica e a harmonização curricular, dificuldades pessoais e financeiras dos alunos no contexto do desempenho académico, assim como as limitações institucionais e pedagógicas contribuem para elevadas taxas de reprovação dos estudantes angolanos do 1.º ano dos cursos de ciências, tecnologia, engenharias e matemática (STEM).

Com o tema "Preditores de sucesso e insucesso académico no ensino superior STEM em Angola: evidências de estudantes do primeiro ano utilizando estatísticas descritivas e análise fatorial exploratória", a pesquisa contou com a participação de 491 estudantes de nove universidades, distribuídos pelos cursos de engenharia informática (157), electrónica e telecomunicações (94), engenharia civil (68), de petróleos (43), minas (32), telecomunicações (32), química (30) e engenharia dos recursos naturais e do ambiente (11).

Os estudantes responderam a questionários na presença de investigadores, através do Google Forms, e-mail, WhatsApp e Facebook no período entre 10 de Abril a 13 de Junho de 2019. O estudo identificou três dimensões-chave que contribuem para o insucesso académico no ensino superior na área dos STEM, como barreiras pessoais, académicas e contextuais, que inclui a falta de motivação, défice de competências, desafios emocionais e sobrecarga.

As limitações institucionais e pedagógicas, com ênfase nos problemas de infraestrutura e práticas de ensino inadequadas, assim como a dimensão do desalinhamento curricular e falta de clareza pedagógica, marcada pela percepção de irrelevância do conteúdo e fraca integração teoria-prática, também contribui para o elevado índice de reprovações.

O insucesso académico no ensino superior é definido como um desempenho abaixo das expectativas institucionais em relação ao potencial do estudante considerando factores como a motivação dos estudantes, estabilidade pessoal e apoio socioeconómico. Para o académico António Chivanga Barros, apesar das condições sociais dos estudantes ter influência, a responsabilidade pelo insucesso académico no 1.º ano do STEM recai nos professores.

"O maior problema que Angola tem no processo de ensino e aprendizagem, às vezes, não está no aluno. Está no professor. Enquanto não tiverem excelente qualificação para serem verdadeiros docentes de uma universidade, a Universidade de Angola não vai alavancar", defende.

E continua: "O professor deve fazer ciência para ensinar ciência, pesquisar ciência para ensinar ciência. Agora, se o professor não lê, não conhece as novidades na área que lecciona, não sabe um modelo matemático e não sei o que mais, o que é que ele vai ensinar? Vai buscar informação à inteligência artificial, no Facebook, na Wikipédia, e coloca no quadro os exercícios que nem ele próprio sabe resolver".

Sem números oficiais de alunos repetentes

Apesar de a metodologia usada contar com critérios de inclusão, como alunos que ingressaram pela primeira vez no ensino superior e estudantes que repetem disciplinas do primeiro ano, e concluir que a saída do insucesso para o sucesso depende da interacção de competências individuais, motivação, apoio institucional e estabilidade pessoal, o estudo não conseguiu aferir, de facto, a estatística dos alunos reprovados durante o período analisado. Uma informação guardada "a sete chaves" pelo Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação (MESCTI), que não divulga os números do ensino superior desde a pandemia da Covid-19.

O MESCTI não publica o anuário estatístico desde 2022, um documento que mostra o ambiente universitário e o seu desenvolvimento a cada ano, e que ajuda os investigadores a explorar os dados para que haja um melhor suporte na elaboração de políticas públicas para o sector.

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