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Gestão

A evolução tecnológica aplicada ao controlo de gestão

EM ANÁLISE

A tecnologia, por si só, não resolve tudo. Muitos projectos falham porque são implementados sem processos claros, sem um governance de dados robusto, ou sem investimento adequado nas pessoas. A verdadeira transformação digital exige disciplina, clareza de objectivos e exige profissionais preparados para questionar, interpretar e contextualizar a informação disponível.

A evolução tecnológica deixou, há muito, de ser um tema reservado aos especialistas em sistemas de informação para se tornar um elemento central na vida das organizações. No contexto empresarial, a tecnologia não é apenas um sinal de modernidade, mas um factor crítico de competitividade, eficiência e sustentabilidade.

Na minha perspectiva, este impacto é particularmente evidente nas áreas de preparação de informação financeira e de controlo de gestão, onde a transformação em curso representa uma oportunidade relevante, mas também um desafio que não deve ser subestimado.

A crescente incorporação de soluções tecnológicas nos processos de negócio tem vindo a alterar profundamente os perfis de competências procurados pelas empresas. Já não basta dominar conceitos técnicos tradicionais: é indispensável compreender e utilizar de forma eficaz ferramentas digitais que permitem automatizar tarefas, tratar grandes volumes de dados e apoiar a tomada de decisão.

Esta evolução responde, acima de tudo, a uma necessidade clara das organizações - a melhoria contínua da eficiência operacional - e exige uma mudança consistente na forma como os profissionais encaram o seu papel. No domínio da informação financeira, esta transformação é particularmente sensível.

A fiabilidade dos dados financeiros é essencial para a confiança dos diversos stakeholders, desde a gestão e os accionistas até aos reguladores e ao mercado em geral. A pressão crescente para produzir informação mais rigorosa, mais rápida e mais relevante tem imposto às áreas financeiras uma adaptação constante, que não pode ser alcançada apenas com métodos tradicionais. O controlo de gestão, por seu lado, assume um papel cada vez mais estratégico, permitindo antecipar riscos, identificar oportunidades e apoiar decisões num ambiente económico volátil e exigente.

Em Angola, esta evolução tem sido gradual, mas consistente. Durante muitos anos, a preparação da informação financeira esteve fortemente associada a processos manuais, morosos e sujeitos a erros, com um foco predominante no cumprimento de obrigações legais e fiscais. Esta realidade reflectia um mercado em consolidação, limitado ao nível dos sistemas e da fiabilidade dos dados disponíveis.

Contudo, a evolução do contexto económico e a maior exigência dos stakeholders têm vindo a desafiar este modelo, criando espaço para abordagens mais maduras e tecnologicamente sustentadas. A adopção de sistemas integrados de gestão, soluções de automação, ferramentas de análise de dados e, mais recentemente, inteligência artificial, tem vindo a transformar o panorama empresarial.

Na minha opinião, a inteligência artificial merece um destaque particular. O seu potencial é inegável, seja no apoio à análise de dados, na automatização de tarefas complexas ou na produção de análises avançadas. Todavia, importa ser claro: a tecnologia só cria valor quando os seus resultados são sujeitos a revisão humana, enquadramento crítico e bom senso profissional. Sem estes factores, corremos o risco de gerar informação mais rápida, mas não necessariamente melhor.

É precisamente por isso que considero essencial uma abordagem estruturada à utilização da inteligência artificial. Modelos de governance adequados, princípios éticos claros e preocupação com a qualidade dos dados são indispensáveis para garantir que a tecnologia reforça a confiança na informação financeira, em vez de a comprometer. Quando bem aplicada, a tecnologia permite reduzir erros operacionais, libertar recursos e criar condições para decisões mais céleres e fundamentadas.

No controlo de gestão, os benefícios tornam-se ainda mais visíveis. A disponibilidade de indicadores quase em tempo real, dashboards interactivos e análises preditivas aproxima a função financeira da operação e da estratégia.

O foco deixa de estar na produção de relatórios extensos e pouco accionáveis, passando para a definição da informação realmente relevante e para a sua interpretação crítica. Num contexto económico exigente, esta proximidade entre informação e decisão é, a meu ver, um factor determinante para a resiliência das organizações.

Contudo, importa sublinhar que a tecnologia, por si só, não resolve tudo. Muitos projectos falham porque são implementados sem processos claros, sem um governance de dados robusto, ou sem investimento adequado nas pessoas. A verdadeira transformação digital exige disciplina, clareza de objectivos e exige profissionais preparados para questionar, interpretar e contextualizar a informação disponível.

Neste contexto, torna-se igualmente claro que as empresas necessitam não apenas de tecnologia, mas de acompanhamento especializado e de parceiros de confiança que garantam a fiabilidade de todo o processo. A tecnologia, por si só, não assegura a qualidade da informação financeira - é a combinação entre ferramentas adequadas, processos robustos e parceiros experientes que permite transformar dados em decisões verdadeiramente fundamentadas, confiáveis e que acrescentem valor.

Em síntese, acredito que a evolução tecnológica aplicada ao controlo de gestão representa uma oportunidade de transformação profunda, permitindo uma passagem de uma lógica reactiva para uma abordagem verdadeiramente estratégica e orientada para a criação de valor. As organizações que compreenderem esta mudança e investirem de forma equilibrada em tecnologia, nos processos e nas pessoas estarão mais competitivas, mais sustentáveis, e melhor preparadas para enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades de um mercado em permanente evolução.

JOÃO MARREIROS, Senior Manager de Audit & Assurance - Financial Services da KPMG Angola

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