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Opinião

Infraestruturas, emprego e inflação Prioridades económicas inadiáveis

MILAGRE OU MIRAGEM?

No actual contexto e face às transformações em curso no cenário internacional, reduzir as pressões inflacionistas na classe de "Alimentação e bebidas não alcoólicas" e aumentar a oferta de emprego formal, sobretudo para a juventude, qualificada e não qualificada, mostram-se politicamente inevitáveis.

Com o início de um novo ano, abrem-se também novas oportunidades para a governação em Angola enfrentar dois dos principais problemas que continuam a afectar a vida dos angolanos: a inflação e o desemprego, em particular entre os jovens.

A inflação corrói o poder de compra das famílias e torna o ambiente de negócios imprevisível, prejudicando a confiança dos agentes económicos. Por sua vez, níveis elevados de desemprego tendem a gerar instabilidade social, o que também mina a confiança e inibe o investimento privado.

No caso de Angola, as estatísticas oficiais indicam que, em 2025, o Executivo demonstrou empenho em lidar com estes dois desafios. No que se refere à inflação, os dados do INE são, à primeira vista, encorajadores. Em Dezembro de 2025, a inflação homóloga (Dezembro de 2025 face a Dezembro de 2024) registou uma desaceleração de 11,8 pontos percentuais, situando-se em 15,7%, contra 27,5% no período anterior (cf. Gráfico 1).

Contudo, uma análise mais longa revela um quadro menos animador: em Dezembro de 2025, os preços encontravam-se 156,03% acima dos níveis observados em Dezembro de 2020 (ano base), conforme ilustra o Gráfico 2. Ou seja, embora o ritmo de crescimento dos preços tenha abrandado nos últimos 12 meses, o nível geral de preços permanece significativamente elevado, o que continua a preocupar famílias e empresas.

O relatório do INE mostra ainda que a classe "Alimentação e bebidas não alcoólicas" foi, em Dezembro, a principal responsável pelo aumento do nível geral de preços, contribuindo com 9,78 pp. Este dado volta a evidenciar que, apesar das diversas iniciativas públicas e privadas, o país permanece distante de satisfazer a procura interna por bens alimentares. A este facto somam-se os dados do Banco Nacional de Angola, que indicam uma redução de 26% nas importações de bens alimentares entre 2024 (2 049,4 milhões USD) e 2025 (1 509 milhões USD), o que ajuda a explicar as persistentes pressões inflacionistas neste segmento.

Torna- -se, assim, politicamente inevitável que o Executivo reveja o quadro actual, removendo os obstáculos que impedem quem já produz de aumentar volumes e quem deseja produzir de iniciar a actividade. No mercado de trabalho, as estatísticas oficiais mostram que, no 3.º trimestre de 2025, a taxa de desemprego registou uma redução de 1,9 pp, passando de 28,8% no 2.º trimestre para 26,9%.

Ainda assim, a taxa de informalidade manteve-se acima dos 70%, o que significa que cerca de sete em cada 10 pessoas ocupadas trabalham fora do sector formal, sem contrato de trabalho nem protecção social, nomeadamente sem contribuições para a segurança social. Este quadro representa um risco significativo para a sustentabilidade futura das finanças públicas.

A situação é particularmente preocupante entre os jovens. O desemprego juvenil (15-24 anos) atingiu 48,7% no 3.º trimestre de 2025, merecendo atenção prioritária da governação. Esta faixa etária representa cerca de 22% da população (7 889 167 pessoas), mas aproximadamente 1 982 524 jovens, dos quais 1 131 051 são mulheres, não sabem ler. Este défice educacional constitui, por si só, um sério obstáculo à integração produtiva destes jovens na economia e na sociedade.

Diante deste cenário, aumentar a produção de bens alimentares e, simultaneamente, criar condições para expandir o emprego no sector formal da economia revelam-se politicamente inevitáveis, sobretudo num ano pré-eleitoral.

A análise do OGE 2026 indica que o Executivo prevê investir cerca de 3,2 biliões de Kwanzas na construção de infraestruturas e instalações. Sendo o sector da construção intensivo em mão de obra, abre-se aqui uma janela de oportunidade para integrar parte da mão de obra não qualificada no sector formal.

Para que tal se concretize, é crucial que o Executivo condicione o acesso a contratos públicos à contratação formal dessa mão de obra; caso contrário, o impacto esperado dificilmente se materializará. Além disso, seria desejável que, no âmbito das empreitadas, as empresas contratadas fossem obrigadas a promover formação em contexto de trabalho, podendo o Estado considerar a atribuição de incentivos ex post às empresas que cumpram este requisito.

Em suma, no actual contexto e face às transformações em curso no cenário internacional, reduzir as pressões inflacionistas na classe de "Alimentação e bebidas não alcoólicas" e aumentar a oferta de emprego formal, sobretudo para a juventude, qualificada e não qualificada, mostram-se politicamente inevitáveis.

No entanto, este processo deve ser conduzido de forma sustentável e gradual, de modo a colocar Angola no tão desejado caminho do crescimento económico sustentável e inclusivo

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