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Grande Entrevista

"Fica muito difícil financiar as empresas privadas porque os bancos têm critérios europeus"

Conceição Vaz Pedro, gestora de empresas e consultora de investimentos

Conceição Vaz Pedro, em entrevista ao Expansão, defende um plano Marshall para Angola para facilitar o financiamento das empresas, tendo em conta a difícil realidade que se vive. Recorda que o momento é de crise e esse deve ser o foco. Discorda da revisão da Constituição, porque há "assuntos prioritários".

A conjuntura económica em Angola é bastante adversa para desenvolver negócios. Que avaliação faz a economia?

Estamos mal. Nem mesmo no tempo de guerra estivemos tão mal como agora. Estamos num momento de muitos desafios. É tudo consequência dos últimos 20 anos, porque não conseguimos fazer avanços e nem assumimos determinadas reformas que nos dessem alguma estabilidade económica, quer do ponto de vista das contas ou mesmo da gestão.

A situação ainda pode piorar?

Não há nenhuma empresa em Angola que esteja a passar por um momento de estabilidade financeira. É um momento económico bastante difícil que requer dos actores muita ginástica na forma de pensar o mercado. Precisamos da apostar na inovação e fazer reformas. Não fizemos a base. Fomos considerados como elefante de pernas de barro. E isso revelou-se. Porque um pequeno abanão que estamos a passar, deixou-nos em dificuldades. E, mais, com a crise pandémica tudo parece desabar.

Que reformas são necessárias para ajudar a estabilizar a economia?

Sempre defendemos que se introduzissem reformas económicas que permitissem maior abertura em termos de mercado em função do momento que vivemos e que fragilizou o tecido empresarial. As reformas em curso poderão dar resultados no curto e médio prazos. As empresas hoje precisam de reforço financeiro e é preciso garantir que tenham acesso aos financiamentos. Pode-se fazer reformas que venham a melhorar o ambiente de negócios para atrair mais investimento estrangeiro. As empresas para terem competitividade têm de ter dinheiro. Então é preciso reformar o sistema financeiro nacional e que a banca conceda créditos

Quando fala de reformar o sistema financeiro, será que é altura de o Estado criar mais incentivos financeiros às empresas?

O acesso ao crédito é determinante. Somos uma economia africana e as economias africanas têm uma forma de serem realizadas. Hoje a Nigéria tem a sua forma de fazer o mercado e não é igual à Europa. Temos uma banca proeminentemente europeia, num País africano e faz a economia com o modelo europeu. Fica muito difícil financiar as empresas privadas porque os bancos em Angola têm critérios europeus. É uma relação que se tem revelado difícil. Por um lado, o banco central tem criado medidas para forçar a banca a participar mais na economia, mas a banca, como qualquer outra empresa, persegue os lucros. As empresas formais têm uma alta taxa de mortalidade e é normal que o banco se queira proteger. A forma como vemos os negócios, não cabe muito confortavelmente na política e cultura da banca que temos em Angola.

Está a querer dizer que temos que ir buscar um modelo angolano e africano de fazer mercado?

Temos de adequar a política de financiamento à forma como fazemos economia. Temos de assumir a nossa forma de fazer economia e deixar de parte os modelos estrangeiros que não correspondem à nossa realidade. A base financeira que suporta essa economia deve compreender a nossa realidade. O contrário do que estamos a tentar fazer e obrigar a que nos perfilemos ao modelo europeu de fazer economia, não vai resultar.

Que consequências teremos e em quanto tempo conseguiremos realizar?

Isso pode trazer um grande risco à nossa economia. O que vemos hoje é uma situação de confronto entre os empresários que todos os dias precisam de reforços e uma banca sem critérios para o financiamento da economia. Há aqui uma postura adversa de um lado e do outro.

Que medidas adoptar para evitar esse conflito de interesses?

Ou nós encontrámos um modelo financeiro que seja nosso para que a economia cresça. Se a banca que temos em Angola não consegue ajudar para que a economia se revitalize à velocidade que queremos e o Estado tivesse condições, deveríamos adoptar um plano Marshall angolano, ou seja um pacote financeiro para suportar a economia. Esses planos são gizados para revitalizar a economia e nem sempre os financiamentos são 100% recuperados. O que for recuperado, tudo bem, mas também é um financiamento necessário para ajudar as empresas. Entendo, na minha opinião, que um plano Marshall, passa por desburocratizar a concessão de crédito.

Ainda há muita burocracia na concessão de crédito ou a banca não tem confiança nas empresas?

É muita burocracia na nossa perspectiva angolana e na nossa forma de fazer mercado. Mas para um banco europeu, não se trata de burocracia, apenas procedimentos normais. São critérios europeus que não se encaixam na realidade angolana e africana.

Está a querer dizer que os bancos estão a impor a realidade europeia?

É uma realidade que não se pode aplicar na nossa forma de fazer mercado. Temos de reflectir nisso se queremos ter uma economia angolana. Nesses anos todos foram ensaiados vários modelos de programas de financiamento que não resultaram. Há três questões que temos de analisar: primeiro, o modelo de financiamento e os critérios exigidos para se obter o financiamento, em segundo, quem é o público-alvo para ter acesso aos financiamentos e, em terceiro, perceber que a prática do empresário em Angola é uma realidade nova. Temos uma economia de mercado muito recente e é preciso que se perceba isso. Estamos a aprender a fazer. Todo o esforço deve ser a meta que queremos atingir e solidificar a nossa presença no mercado e revitalizar a economia.

Falta formação aos nossos empresários?

Em alguns casos, sim. Para as Micro, Pequenas e Médias Empresas, o INAPEM tem feito um trabalho de formação extraordinário. Neste segmento, há maior preocupação dos empresários em buscar informação para realizar os seus negócios, enquanto os grandes empresários procuram mais pelos melhores gestores e melhores práticas. O empresário tem de ter noção e consciência de como fazer mercado. Parte do que um empresário ganha vai para os salários e a outra tem de cobrir o reinvestimento para perceber o crescimento da empresa.

É preciso olhar mais para as MPMEs?

Não é apenas dar financiamento, mas dotá-las para fazerem economia de mercado.

A falta de apoios do Estado às empresas não será consequência da conjuntura económica?

Conhecemos vários programas de financiamento. É preciso fazer diagnóstico, porque os programas, quando são gizados, devem ser elaborados no âmbito de um projecto. Ao longo do processo da sua execução devem ter a avaliação de desempenho para ver os constrangimentos durante a sua implementação e corrigir. No fim disso, perceber os estrangulamentos que ocorreram para que o programa subsequente já esteja mais evoluído e maduro. Não conheço nenhum programa de financiamento com esses critérios. Há um ou outro programa que resultou, como é o caso da aquicultura. Agora é preciso saber se era essa a meta a atingir e perceber os constrangimentos que os criadores de peixe tiveram.

O País ainda importa peixe...

Estamos a importar carapau. Na verdade, a qualidade do nosso carapau é referência em Moçambique. Conheço entidades que viajam para Moçambique para vender o nosso carapau. Não entendo porque ainda temos de importar peixe. O País importa, anualmente 900 mil toneladas de peixe carapau. Nós podemos fazer aquicultura de água doce e no mar e essa última pode ajudar na auto-suficiência e até aumentar as exportações. Ao nível da economia, não podemos continuar a pensar que o petróleo é a nossa maldição, é o nosso ponto forte. Com a integração regional e continental, o País tem de mostrar as suas potencialidades e mestria porque corremos o risco de ser ofuscados.

Exploramos pouco ou mal o nosso mar?

Temos condições para desenvolver a indústria da farinha de peixe, que é muito apreciada e exportável. Nesse aspecto, temos de identificar e potenciar aquilo que são as nossas grandes virtudes, em termos de recurso naturais e riquezas.

Onde falhamos?

São sempre questões políticas. Não só a vontade, mas a falta de foco. Temos tudo para desenvolver esse País e ter uma economia estável. Quem governar tem de saber fazer e não é só pensar, mas sim executar. É preciso fazer uma agenda e tornar as coisas realizáveis. Tínhamos de desenvolver a indústria à volta da produção de petróleo para desenvolver outros sectores. Nessa altura, estaríamos a exportar quadros da indústria petroquímica para os países que estão a começar a produzir petróleo. Não desenvolvemos a indústria química e esse foi o nosso erro. O País perdeu bastante e tínhamos tudo para dar certo. Não se admite que ainda continuemos a importar 80% do combustível consumido em Angola.

(Leia a entrevista integral na edição 616 do Expansão, de sexta-feira, dia 19 de Março de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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