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Opinião

Jovens e mulheres continuam a liderar o Índice de Sofrimento Económico

MILAGRE OU MIRAGEM?

Os dados sinalizam que, apesar da trajectória de descida do sofrimento económico, os jovens e as mulheres continuam a suportar o maior peso da crise laboral e social. Para que a melhoria seja sustentável, torna-se imperativo acelerar a criação de emprego formal, emprego que garante o pagamento do imposto de rendimento de trabalho e a segurança social, em especial direccionado para jovens e mulheres, os grupos mais expostos às actuais fragilidades do mercado de trabalho.

No dia 15 de Agosto o INE divulgou a Folha de Informação Rápida do Inquérito ao Emprego em Angola (IEA) referente ao segundo trimestre de 2025. A partir destes dados é possível calcular o Índice de Sofrimento Económico (ISE), instrumento que avalia a pressão que a inflação e o desemprego exercem sobre a vida dos cidadãos, passados que estão os primeiros 6 meses de 2025.

O cálculo do ISE segue a metodologia criada pelo economista norte-americano Arthur Okun: soma-se a taxa de desemprego apurada pelo IEA com a inflação acumulada em 12 meses publicada pelo INE. O objectivo não é medir o desempenho da economia como tal, mas sim captar a "dor sentida pelo cidadão". A publicação regular do índice permite aferir se as políticas públicas estão, de facto, a reduzir os dois principais males que afectam a qualidade de vida dos angolanos - o desemprego e a inflação.

Os dados do IEA revelam que a informalidade continua elevada: passou de 78,4% no segundo trimestre de 2024 para 78,6% no mesmo período de 2025. Contudo, em termos trimestrais, houve recuo face ao primeiro trimestre deste ano (de 80,8% para 78,6%).

A taxa de desemprego geral mantém uma tendência de queda desde o primeiro trimestre de 2024, quando atingiu 32,4%, situando-se agora em 28,8%. No caso dos jovens entre 15 e 24 anos, a taxa desceu ligeiramente de 54,2% para 52,7%. Porém, 92,6% dos jovens empregados encontram-se no sector informal, o que limita a melhoria efetiva das suas condições de vida. Este dado ajuda-nos a compreender a enorme participação dos jovens nos últimos protestos violentos, particularmente em Luanda.

No que respeita à estrutura produtiva, a agricultura ainda absorve 46,6% da força de trabalho, evidenciando que a diversificação económica permanece ainda um enorme desafio para a governação. A indústria, energia e água recuaram de 4,9% para 4,6%, enquanto a construção, outro sector capaz de dinamizar, por efeito de arrasto, outros sectores da economia, registou ligeira recuperação (de 3,2% para 3,5%). O emprego rural cresceu de 75,6% para 76,5% face ao primeiro trimestre, e mais de 10 pontos percentuais em termos homólogos. Ainda assim, a taxa de informalidade nessas áreas ultrapassa os 90%.

Nesta senda, havendo melhorias na inflação e desemprego, o sofrimento económico tem mostrado uma tendência de abrandar desde o 2.º trimestre de 2024 quando atingiu 63,3% estando agora nos 48,5% (uma redução de 14,8 pontos percentuais), cf. Gráfico 1. Enquanto esta é uma tendência mais abrangente, esses ganhos não são uniformes já que não atingem a todos os grupos etários na mesma velocidade. Para os jovens (15-24 anos) apesar de que a redução para o mesmo período (2.º T 2024 vs 2º T 2025) ter sido de 15 pontos percentuais, o índice continua muito elevado em 72,4%, cf. Gráfico 2.

O mesmo acontece quando comparamos o sofrimento económicos das mulheres vs homens. Apesar de no período em questão (2.º T 2024 vs 2.º T 2025) verificarmos, cf. Gráfico 3, uma redução de 15,6 pp no sofrimento económico das mulheres saindo de 65,2% para 49,6%, ainda assim a diferença entre o sofrimento económico dos homens vs mulheres em Angola aumentou, de 0,8 para 2,2 pontos percentuais. A governação precisa prestar atenção a esta situação.

Quanto à zona de residência, vemos no Gráfico 4 que existe uma tendência de redução tanto para as zonas urbanas como rurais. Todavia, apesar do sofrimento económico ser inferior nas zonas rurais, não podemos deixar de relembrar o que já assinalamos antes, i.e., que nestas zonas a informalidade atinge 94,2%, logo, a redução do índice não se traduz necessariamente em ganhos reais de bem-estar.

Enfim, os dados sinalizam que, apesar da trajectória de descida do sofrimento económico, os jovens e as mulheres continuam a suportar o maior peso da crise laboral e social. Para que a melhoria seja sustentável, torna-se imperativo acelerar a criação de emprego formal, emprego que garante o pagamento do imposto de rendimento de trabalho e a segurança social, em especial direccionado para jovens e mulheres, os grupos mais expostos às actuais fragilidades do mercado de trabalho. A criação de mais postos de trabalho, em nosso entender, exige da governação uma mudança de atitude no que toca à melhoria do ambiente de negócios e assegurar liberdade económica para todos os angolanos independentemente da sua cor partidária.

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