A Geração Z em Angola
Se a geração Y rompe a ideia de se alcançar a felicidade através do trabalho, a geração Z, essa, cresce vendo os pais chegarem a casa esgotados obedecendo a "horários marotonianos".
Se os nossos pais e avós se apresentavam em sociedade referindo a sua profissão, as novas gerações vêem o trabalho como sendo mais uma faceta a juntar a tantas outras, mas não como definidora da essência pessoal. No século XIX Paul Lafargue escreveu um ensaio criticando a obsessão pelo trabalho defendendo a redução da jornada laboral.
Desde essa data até aos nossos dias muita água passou por baixo da ponte..., mas, ainda assim, seguimos com um sistema laboral meritório. Consolidou-se a cultura do esforço: "Aguenta a jornada porque no fim serás recompensado.
A meritocracia consolidada na nossa cultura há décadas, leva-nos a pensar que temos as férias porque as merecemos e não porque são um direito do trabalhador.
Nos baby-boomers (pessoas nascidas entre 1945 e 1964) havia um sentido de lealdade forte pois o trabalhador entendia que a empresa cuidava dele havendo um retorno. Esta reciprocidade no trabalho começa a quebrar- -se nos anos 90 - 2000 porque começa a aumentar a precariedade das condições laborais.
A geração Y (pessoas nascidas aproximadamente entre 1981 e 1996) pensa que o trabalho é algo que realiza e dá sentido à vida, mas esta visão hedonista começa a entrar em crise ganhando o seu apogeu com a pandemia. A geração Z (1997-2010) entende hoje que o mal-estar associado ao sistema precário atual não corresponde às promessas de felicidade. Descobriu que essa tal lealdade que os baby-boomers referiam afinal não é recíproca. Pede-se ao trabalhador que dê tudo, mas afinal dá-se-lhe, em troca, muito pouco. O mal-estar é tão grande, que o trabalho deixou de ser visto para muitos como o tal local de realização pessoal. Os jovens verificam que o emprego já não lhes vai garantir a vida que os seus pais têm.
O bem-estar será encontrado por outros meios que não o trabalho, seja através de amigos, da política ou mesmo pelo ativismo. O sentido da vida, esse, está agora ligado a outras dimensões sociais já que o emprego não é onde a geração Z se poderá expressar e ser feliz, pelo contrário, é uma obrigação ou necessidade. Por isso, os jovens questionam as condutas das empresas ainda arreigadas a modelos antigos. Em especial a submissão a horários esgotantes numa cultura laboral que assenta num sacrifício exagerado muitas vezes levando ao esgotamento. Se a geração Y rompe a ideia de se alcançar a felicidade através do trabalho, a geração Z, essa, cresce vendo os pais chegarem a casa esgotados obedecendo a "horários marotonianos".
O êxito para estes jovens significa ter um emprego que esteja perto de casa, com bom ambiente, ter férias, fins de semana livres e ainda ter tempo livre. O que se espera basicamente é viver. Trabalhar para viver, mas não viver para trabalhar. Isto porque a geração Z questiona o que o trabalho lhes pode aportar ao contrário das gerações anteriores que assumiam o emprego como algo adquirido fazendo parte da sua identidade.
Do "Eu sou o meu trabalho" passou-se ao "O trabalho não me define enquanto membro da sociedade e prefiro privilegiar a minha saúde mental". Injustamente considerada como sendo uma geração conflituosa, é associada pelos mais críticos, às manifestações e movimentações sociais, quando na verdade, lhes devemos muito. São eles que expressam uma nova visão do mundo laboral frisando a necessidade de existir um equilíbrio entre o pessoal e o profissional para se evitar o "burnout" que por exemplo a geração dos baby-boomers tem experienciado em número elevado.
Devemos à geração Z também a reivindicação de uma exigência muito falada durante os últimos anos e que se tornou imprescindível no momento de permanecer num emprego, que quem mande tenha as necessárias "soft skills" para que o meio laboral seja um local de convivência saudável para os empregados.
A falta de tais habilidades comportamentais e emocionais é para os jovens um "no-go" levando muitos a decidir abandonar o posto de trabalho de modo a poder manter a sua saúde mental.
*Marta Bickel, Professora na LAIS-British School of Angola













