Cenários geopolíticos do petróleo | Por que os EUA voltaram a olhar para a Venezuela?
A questão venezuelana não é apenas sobre petróleo. É sobre poder global, moeda, segurança energética, influência regional e o equilíbrio estratégico do século XXI. O que está em disputa não são apenas barris, mas o desenho do sistema internacional. E as consequências tocarão inevitavelmente todos os produtores, incluindo Angola.
A recente reaproximação entre Washington e Caracas não é um gesto diplomático isolado, nem um simples movimento humanitário. Trata-se de uma decisão estruturante, profundamente ancorada em fatores económicos, estratégicos e geopolíticos. No centro continua a estar o petróleo, não apenas enquanto recurso energético, mas como instrumento de poder global, mecanismo financeiro e alavanca de influência internacional.
Centrei esta abordagem em 3 razões fundamentais, tal como afirmou o professor catedrático Vítor Santos para explicar este reposicionamento dos Estados Unidos em relação à Venezuela, nomeadamente:
01. A necessidade técnica e estratégica do petróleo pesado venezuelano
02. O petróleo e a batalha silenciosa pelo dólar como moeda de reserva mundial 03. A presença crescente da China na América Latina
Vamos analisá-los...
1.A necessidade técnica e estratégica do petróleo pesado venezuelano
Durante décadas, as refinarias americanas, sobretudo no Golfo do México (Texas e Louisiana), mas também no Midwest e na Califórnia, foram modernizadas e calibradas para processar petróleo pesado, proveniente essencialmente da Venezuela, México e Canadá. Esse parque refinador foi desenhado para esse tipo específico de crude. Entretanto, a revolução do shale transformou os EUA num dos maiores produtores globais, mas a produção doméstica é predominantemente petróleo leve. Resultado: existe uma incompatibilidade estrutural entre a tecnologia instalada e a matéria-prima abundante internamente. A Venezuela, por seu lado, possui algumas das maiores reservas mundiais de petróleo pesado. Porém, vive um cenário de degradação tecnológica, infraestruturas danificadas, constrangimentos financeiros, sanções e um sistema produtivo fragilizado, o que reduz a capacidade de exploração e eficiência. Grande parte do petróleo venezuelano tem sido direcionado para a China e Rússia, reforçando alianças que não favorecem Washington. Reaproximar-se de Caracas não é, portanto, apenas geopolítica: é também uma necessidade industrial e estratégica interna dos EUA.
2.O petróleo e a batalha silenciosa pelo dólar como moeda de reserva mundial
Vivemos hoje um momento de crescente debate em torno da desdolarização da economia mundial. Desde os anos 1970, após o fim de Bretton Woods e a desvinculação do dólar ao ouro, o petróleo tornou-se o pilar que sustentou a hegemonia da moeda americana. O sistema do "petrodólar" consolidou-se através de acordos estratégicos, sobretudo com a Arábia Saudita, que passou a vender petróleo exclusivamente em dólares e a reinvestir excedentes financeiros nos EUA. A OPEP seguiu a mesma lógica, garantindo procura estrutural pelo dólar. Esse modelo começa a ser desafiado. A China compra petróleo em yuan; a Rússia tem intensificado transações fora do sistema baseado no dólar; e vários países estão a desenvolver mecanismos financeiros alternativos. Se a procura global pelo dólar diminuir, a capacidade de financiamento do Estado americano e a sua influência geopolítica enfraquecem. Por isso, assegurar influência sobre reservas gigantescas de petróleo como as da Venezuela, é também proteger a arquitetura financeira internacional que sustenta o poder dos EUA. Mais uma vez, a energia e finanças continuam profundamente ligadas.
3.A presença crescente da China na América Latina
Há ainda a dimensão geopolítica clássica. Em Washington, a América Latina volta a ser vista como espaço de disputa estratégica. A China tem reforçado a sua presença na região de forma consistente e calculada: investindo em infraestruturas críticas, financiando economias, entrando em setores energéticos, minerais e logísticos, muitas vezes oferecendo condições mais flexíveis do que as instituições financeiras ocidentais. A Venezuela é um caso-limite desta dinâmica: forte presença chinesa e russa, dependência de financiamentos orientais, recursos energéticos massivos e uma relação histórica de tensão com os EUA. Reaproximar-se de Caracas é também impedir que este território estratégico caia de forma definitiva na esfera de influência de Pequim. Mas há um ponto decisivo: conseguirão os EUA estabilizar a Venezuela? Mesmo reconhecendo o racional económico e geopolítico americano, a grande pergunta é se Washington conseguirá de facto estabilizar a Venezuela. O país reúne todas as condições para que a entrada seja rápida e motivada, mas para que a saída seja lenta, onerosa e politicamente dolorosa. A Venezuela é enorme, complexa, com instituições fragilizadas, economia vulnerável, forte informalidade, grupos armados, redes paralelas de poder e um território difícil de controlar, com montanhas e vasta floresta. Não se trata apenas de aliviar sanções e comprar petróleo. Trata-se de reconstruir confiança, recuperar infraestruturas, modernizar a indústria petrolífera, restaurar credibilidade institucional e criar previsibilidade económica. A história recente mostra que intervenções em países estruturalmente instáveis tendem a transformar-se em compromissos longos, caros e de resultados incertos. Se os EUA falharem em criar estabilidade real, a China tem todas as condições para vencer no longo prazo. Pequim atua com paciência estratégica, foco económico e relações menos condicionadas politicamente. Em cenários frágeis, essa abordagem pode ser mais eficaz. A grande disputa não será sobre quem chega primeiro, mas sobre quem consegue ficar, moldar o futuro e transformar a Venezuela em parceiro estável. E onde entra Angola? Para países produtores como Angola, este movimento global traz riscos e oportunidades. Pode significar nova volatilidade, novos ciclos de preço, reposicionamento de mercados e reconfiguração de alianças. Mas reforça sobretudo uma lição fundamental: petróleo continua a ser poder, mas depender exclusivamente dele é caminhar sobre terreno incerto. Angola deve observar, analisar e preparar-se estrategicamente.
Conclusão
A questão venezuelana não é apenas sobre petróleo. É sobre poder global, moeda, segurança energética, influência regional e o equilíbrio estratégico do século XXI. O que está em disputa não são apenas barris, mas o desenho do sistema internacional. E as consequências tocarão inevitavelmente todos os produtores, incluindo Angola.
* Querubim Lucamba Economista
Edição 858 do Expansão, sexta-feira, dia 09 de Janeiro de 2026














